Madre Nazarena

História e Família
Graniti é um pequeno lugarejo, ao pé das montanhas que anunciam o vulcão Etna, entre as cidades de Messina e Catânea, na Itália. Região tipicamente agrícola, a cidadezinha hoje cresceu, pois aqueles que foram para os grandes centros ou cidades do litoral em busca de melhor trabalho, retornaram para construir aí uma vida nova.

A pequena vila está aglomerada ao redor da Igreja Paroquial, construída no século XVII sob o impulso da religiosidade popular suscita pelo Concílio Tridentino e pela Reforma Católica. Foi nessa Igreja que, no dia 22 de junho de 1869, Bruno Majone e Marta Falcone levaram para batizar, Maria a última filha, nascida um dia antes. E foi na mesma Igreja que ela recebeu a Crisma e fez a Primeira Comunhão. A situação da família era boa. Graniti era um lugarejo de agricultores e pequenos artesãos, onde a maioria trabalhava ao ritmo das estações para a semeadura e para a colheita, e a fartura ou a carestia estavam ligadas às mudanças climáticas.

Nessa estrutura muito pobre, Bruno Majone era um privilegiado, pois trabalhava como guarda campestre, o que quer dizer que passava seus dias a cavalo com o fuzil à tiracolo, vigiando as terras de um rico fazendeiro, o Marquês Schissó, que morava na cidade. Uma vida sem fartura, mas também sem preocupações, porque ganhava uma renda fixa, o que para a maioria dos agricultores era um sonho.

Muito pouco se sabe sobre a infância de Maria, mas certo é que aprendeu a ler e escrever, o que causa admiração, pois na época não se dava muita importância à instrução primária, ainda mais Às mulheres simples do interior.

A partir de 1880, a família entra num período difícil, quando Bruno Majone adoece gravemente e morre aos 63 anos de idade. Os filhos homens assumem, então, o sustento da mãe e das irmãs. No entanto, Maria, ainda menina, deve dar a sua contribuição. Testemunhas descrevem-na como uma garota vivaz, boa, gentil, cheia de iniciativas, capaz de suportar o cansaço da lavoura sem reclamar. Era, sobretudo, generosa. Entre as alegria de sua juventude, aparece a figura do Padre Vicente Calabró, um santo homem e pároco de Graniti. Organizou com a dedicação a Pia União das Filhas de Maria e a orientava com notável solicitude pastoral.

A associação reunia, especialmente, jovens mulheres a quem era confiada a catequese para crianças e empenhavam-se na difusão da devoção mariana com destaque para a oração do Santo Rosário entre crianças e adolescentes.

Buscando a perfeição cristã, as Filhas de Maria se dispunham a seu um contraste na sociedade descristianizada que favorecia o liberalismo, a maçonaria e o anticlericalismo, difundido numa violenta campanha contra o Papa.

Maria Majone e sua irmã Teresa estavam entre as zeladoras mais ativas da Pia União em Graniti, e é possível que Maria tenha seguido o exemplo da irmã mais velha que, por decisão da família se tornaria religiosa, assim que o futuro da mãe, viúva, e de Maria estivesse assegurado. Por isso Teresa precisava destacar-se em zelo nas atividades paroquiais, e foi dela que Maria aprendeu a viver devotamente o seu dia a dia assim como tinha aprendido a costurar e bordar. Quando não ia ao campo, Maria sentava-se ao lado de Teresa sob a luz da janela a costurar. Devia agradar-lhe, sobretudo, bordar, porque durante toda sua vida mostrou-se especialista nesta arte, o que mais tarde foi de grande utilidade para o Instituto.

Quando a torre da igreja marcava as horas a cada quinze minutos, as duas irmãs recitavam uma Ave-Maria e faziam o Sinal da Cruz. Maria o fazia, também, quando trabalhava na colheita de azeitonas, pois suas companheiras a viam sempre murmurar uma oração aos tantos sinais que a torre da igreja espalhava pelo campo afora, e recordavam que ao meio-dia e às 18 horas quando soava o Ângelus, ajoelhava-se onde estava e fazia a saudação a Nossa Senhora.

Quando explicava o catecismo, as crianças ouviam-na fascinadas. Sua vida era serena, devotamente vivida no horizonte fechado das montanhas que circundavam Graniti e escondiam o mundo ao mesmo tempo presente e distante com seus clamores, tumultos e misérias. Os ecos do mundo distante não chegavam ali. Os primeiros dos quais teve conhecimento, trouxeram duas jovens religiosas que apareceram pedindo esmolas. Suas palavras tiveram para Maria um efeito decisivo.

O chamado de Deus
Em uma tarde de 1889, chegaram a Graniti duas Irmãs do Instituto recém-fundado pelo Padre Aníbal Maria Di Francia (Congregação das Filhas do Divino Zelo, fundada em 19 de março de 1887), sacerdote messinense, que pouco a pouco começava a transformar o mal afamado bairro de Avignone em um local decente para os pobres que ali moravam. As Irmãs eram Maria Giuffrida e Rosalia Arezzo, esta ainda noviça.

O Instituto mantido pelo Padre Aníbal era conhecido como “Pequeno Refúgio de São José”. Somente em 15 de setembro de 1901, por ocasião da festa do Santíssimo Nome de Maria é que confirmou-se o nome definitivo como “Instituto das Filhas do Divino Zelo do Coração de Jesus – FDZ”.

A falta de recursos obrigava as religiosas a peregrinarem pelas cidades e povoados vizinhos para conseguir ajuda.

Ao chegarem a Graniti, as Irmãs Maria e Rosalia procuraram o pároco. Padre Vicente as confiou aos cuidados de duas dedicadas jovens Filhas de Maria: Carmela D’Amore e Maria Majone. Para ambas foi um encontro decisivo. Enquanto guiavam as duas Religiosas pela região, Carmela e Maria não paravam de fazer perguntas sobre a vida que levavam em Messina. E as Religiosas falaram do Padre Aníbal, da obra que com muito sacrifício ele mantinha em Avignone e do compromisso que o nascente Instituto assumiu em dedicar a sua missão para cumprir a ordem de Jesus, expressa no Evangelho de Mt 9, 37-38: “A messe é grande e os operários são poucos. Peça, pois ao dono da Messe, que mande mais trabalhadores À sua Messe”. Nesses versículos bíblicos Padre Aníbal encontrou a resposta para a sua preocupação diante dos pobres e abandonados de Avignone.

A realidade descrita pelas duas religiosas impressionou Carmela e Maria que, admitiam viver numa região pobre, mas era uma pobreza vivida com dignidade e aliviada pela solidariedade. O que as Irmãs descreviam era um mundo cruel de indigência extrema levava ao desespero; um abominável mundo sem esperanças. As Irmãs trabalhavam para salvar a infância abandonada e impedir que fossem vítimas de precoce corrupção. As Religiosas eram poucas, mas tinham certeza de quem em breve o número aumentaria. Em suas palavras de confiança transparecia a energia que vinha da fé na Divina Providência e da certeza de ter dedicado a vida a um ideal santo e puro. À Maria Majone e Carmela D’Amore pareceu, de repente, que em suas vidas faltava um ideal.

Em sua simplicidade, as Irmãs foram muito entusiasmadas ao fazer a narrativa e, por elas, a voz de Deus chegou ao coração de Maria e Carmela. As duas jovens decidiram aumentar o grupo das Irmãs de Padre Aníbal. O desafio, agora, era convencer os familiares a concordar com essa decisão. Todas se preocupavam por ser um Instituto ainda em formação. Foi aí que o pároco Vicente colocou-se ao lado das jovens para conseguir a necessária autorização. No caso de Maria a preferência de entrar para a Vida Religiosa era para a sua irmã Teresa que, além de ser mais velha, já estava com o enxoval preparado. Maria soube sustentar a sua decisão com tal firmeza que Teresa abriu mão dos seus direitos em favor da irmã caçula.

Antes da partida definitiva, as duas jovens forma a Messina conhecer de perto a realidade que estavam dispostas a enfrentar, e se certificarem sobre a veracidade das informações. Ficaram impressionadas com o que viram e retornaram a Graniti decididas a consagrar-se ao Senhor no nascente Instituto. E foi no dia 04 de outubro de 1889 que Maria Majone e Carmela D’Amore partiram definitivamente para Messina.

Quando se encontraram com o Padre Aníbal, ele lhes mostrou o “Refúgio” e não fez segredo da miséria que enfrentavam. Disse-lhes:
- Estas são as condições a que somos constrangidos a viver. Vos sentis de permanecer?
A resposta revela bem o estilo de Majone e suas palavras fizeram o Padre compreender que sua decisão era firme:
- Se tivermos conosco Jesus, nos basta. Todo o resto irá bem!
Da pobreza que as esperava tiveram logo a confirmação. Na hora do jantar apareceram apenas um pouco de pão e duas azeitonas que foram consumidas em silêncio. Uma refeição que, vieram a descobrir, repetia-se com frequência.

Nos primeiros cinco meses Maria e Carmela continuaram vestindo as roupas que trouxeram de casa. Quanto aos trabalhos, tinham muito a fazer, e cada dia mais: cuidar das órfãs, cujo número crescia sempre, sair para mendigar nas cidades e arredores, serviços domésticos, etc.

Umas das lições que as jovens de Graniti aprenderam rápido, foi a paciência para com os pobres que deviam ser tratados como patrões e não como mendigos. Não se devia recebê-los com discursos bonitos antes de providenciar-lhes as necessidades materiais mais urgentes.

Cinco meses foram suficientes para transformar as duas jovens de Graniti em noviças, e no dia 18 de março de 1890 Padre Aníbal lhes concedeu o hábito do Instituto.

A jovem religiosa.
Após dois anos de profundo aprendizado, Maria Majone foi admitida à Profissão Religiosa. Era o dia 18 de março de 1892. A cerimônia, não aberta ao público, foi celebrada na capela do Palácio Brunaccini com a presença das religiosas e das órfãs. A jovem noviça aproximou-se, beijou o primeiro degrau do altar e ajoelhou-se diante de Padre Aníbal, que presidia a celebração. Após o hino ao Espírito Santo ela pronunciou os votos de castidade, pobreza e obediência, aos quais ajuntou-se o compromisso de rezar pelas vocações, o voto do Rogate, que até hoje é característica especial do Instituto. Naquele dia, pela primeira vez, o Padre deu um nome específico à Irmã que professava: Maria Majone passou a chamar-se, Maria Nazarena. Nesse dia também foi admitida à profissão religiosa a jovem Carmela D’Amore.

Na vida diária, nada mudou além da pequena festa realizada e da alegria e aplausos das religiosas e das meninas. Há muito tempo que a jovem de Graniti vivia como autêntica Religiosa com responsabilidades maiores do que normalmente se confiavam às noviças.

Irmã Nazarena procurava responder, com prontidão, às exigências da educação e formação das órfãs.

A Madre
Maria Nazarena, tornou-se Madre no Instituto do Padre Di Francia.
No esforço de traçar um breve perfil da personalidade humana e espiritual da Madre Nazarena podemos dizer que era rica, complexa e simples aos mesmo tempo. Mulher de um incansável dinamismo e de contemplação, que estava em oração constante, e com uma forte inclinação para os trabalhos sociais. Intuitiva. De caráter decidido e, portanto, transbordante de materna doçura, típico de quem está imbuído pela austeridade. Firmemente empenhada em ser humilde. O seu abandono total nas mãos do Senhor a fortalece na generosidade e no zelo.

O seu caminho de religiosa foi marcado pela filial obediência e docilidade à vontade do Senhor. Fiel ao seguir os passos do Fundador, que ela havia escolhido como seu e pai na terra, buscou realizar em si mesma a espiritualidade caracterizada pela doação de si como resposta ao Divino mandamento do Senhor, o Rogate, carisma de santo Aníbal Maria Di Francia.

A sua vida terrena foi marcada não só pelo sacrifício mas também de sofrimento moral e físico. Com a aprovação diocesana das Constituições da Congregação das Filhas do Divino Zelo, segundo as normas do Direito Canônico, foi necessário a convocação do Capítulo Geral, que se deu em Roma nos dias 18 e 19 de março de 1928.

A serva de Deus não foi confirmada como Geral da Congregação e nem mesmo eleita como membro do Conselho Geral. Ela aceitou tudo com grande serenidade, vendo ai a vontade de Deus e acolhendo com humildade a indicação da nova Superiora Geral.

Madre Nazarena sabia que o preço que Cristo pede ais seus servos fiéis e aquele da participação em seus sofrimentos. Ela abraçou essa causa até o fim. Chamada a Roma quatro anos depois, foi nomeada Vigária da nova Superiora Geral, mas na prática ficou afastada de todas as atividades. Passou os últimos cinco anos de vida no silêncio e na solidão, rezando e trabalhando. Muitas vezes lembrou-se do que o fundador tinha dito: “Para a salvação das almas existe vítimas!”. Ela, de joelhos respondeu: “Pai, eu me ofereço!”.

O diabete, que desde de 1920 lhe provocava sofrimentos, continuou e agravou suas condições físicas até gerar o seu lento martírio nos últimos quatro meses de vida.

Às 10 horas do dia 25 de janeiro de 1939, em Roma, depois de receber a Santa Eucaristia, dizendo “Eis que estou pronta”, respondeu mais uma vez ao chamado do Senhor.


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